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O fim da espera: dois anos depois, a bola voltou a rolar em todas as regiões desportivas de Cabo Verde.

Este domingo, 15 de fevereiro de 2026, não foi apenas mais um dia no calendário desportivo. No momento em que o apito inicial soou na ilha do Maio, completou-se o puzzle que há dois anos exibia peças em falta. Cabo Verde volta a ter o motor das suas onze regiões desportivas em pleno funcionamento. De Santo Antão à Brava, o futebol — que é muito mais do que um jogo nestas ilhas — recuperou a sua batida cardíaca completa.

Para as nossas comunidades, o campeonato regional é o grande evento social da semana. É onde a identidade local se afirma e onde os clubes, muitos deles centenários, funcionam como elos de integração ou promovem o sentimento de pertença.

Para os jovens atletas, a paragem de uma prova regional é uma sentença de “morte desportiva” temporária. Sem competição, o talento estagna, a motivação desaparece e as alternativas de lazer, nem sempre saudáveis, ganham terreno. A retoma significa que o sonho de chegar aos “Tubarões Azuis” ou de uma carreira profissional volta a ter um caminho traçado em cada estádio municipal, por mais modesto que seja.

A ausência prolongada em ilhas como a Brava e o Maio serviu de aviso para que interrupções desta natureza não se repitam. A gestão desportiva precisa de evoluir do amadorismo carinhoso para a sustentabilidade estratégica.

É urgente diversificar as fontes de receita. A dependência excessiva do apoio camarário é perigosa; parcerias com o setor privado local e com a diáspora são vitais. O futebol moderno exige gestão. Deste modo, o combate ao abandono passa, inevitavelmente, pela capacitação das associações regionais para a captação de patrocínios e pela gestão rigorosa e profissional de calendários.

Apesar da festa da retoma, o cenário para a época desportiva 2025/26 traz notas de preocupação. Assistimos, com alguma mágoa, a clubes históricos da ilha do Maio que ficaram de fora das competições oficiais — nomeadamente o Barreirense, o Académico 83 ou a Académica da Calheta.

O maior desafio para estas ilhas tem sido combater a deserção de jogadores (muitos dos quais emigram ou se deslocam para ilhas de maior peso económico, como o Sal ou Santiago) e a asfixia financeira. Quando um clube histórico não entra em campo, perde-se uma parte da memória coletiva da ilha. O desafio imediato é criar “fusões de conveniência” ou modelos de academias que permitam a estes nomes históricos sobreviver, mesmo que com estruturas mais enxutas, até que a estabilidade regresse.

Certo, por agora, é que Cabo Verde está de novo unido pela bola. Que o entusiasmo deste domingo no Maio sirva de lição, pois o futebol regional é o oxigénio das nossas ilhas. Sem ele, a nossa juventude perde o norte e as nossas comunidades perdem a voz. Que nunca mais o apito demore tanto tempo a soar.

Por: Nilton Varela / GAFT Sports

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