A arbitragem é, por definição, uma carreira de decisões solitárias sob o olhar atento de milhares. Para Nedil Vaz, essa jornada começou oficialmente entre setembro e outubro de 2011, mas o “bichinho” do apito já se manifestava muito antes. O que começou como um auxílio informal em torneios amigáveis e festas de romaria — a pedido dos próprios jogadores, que viam nele a autoridade necessária — transformou-se numa carreira sólida que passou a ser uma referência na região de Santiago Norte e tem agora o seu fim dentro das quatro linhas, porém certamente continuará disponível para dar o contributo de modo a ajudar os mais novos.
● O salto para a elite
O percurso de Nedil não se fez apenas de intuição; a formação contínua foi o alicerce para a sua ascensão. Entre 2021 e 2023, a sua participação em três formações de Árbitros de Elite consolidou o seu estatuto no panorama desportivo nacional.
O culminar deste esforço aconteceu em 2022, na ilha da Boa Vista, quando fez parte do quarteto que dirigiu a final do Campeonato Nacional entre a Académica do Mindelo, de São Vicente, e o GD Palmeira, da ilha do Sal. É este o momento que Nedil destaca como o auge da sua carreira, um testemunho da confiança depositada no seu trabalho pelas instâncias superiores. Inspirado por figuras como o assistente internacional Luís Barbosa, da Praia, Vaz procurou sempre pautar a sua atuação pelo profissionalismo, conseguindo o equilíbrio — nem sempre fácil — entre as exigências do seu emprego e a disciplina rigorosa dos treinos e jogos.
● Desafios e o futuro da classe
Questionado sobre os momentos mais difíceis, a resposta de Nedil é reveladora da sua mentalidade positiva: declara-se “sempre feliz” na função, admitindo apenas o amargo natural dos erros pontuais cometidos em campo, inerentes à condição humana. No entanto, o seu olhar crítico sobre a estrutura da arbitragem em Cabo Verde é incisivo.
Para o árbitro assistente de Santiago Norte, a região possui talentos ao nível de todas as outras regiões do país, mas carece de maior visibilidade e acompanhamento por parte do Conselho Nacional de Arbitragem (CNA). Vaz aponta soluções concretas para a modernização do setor: “A criação urgente de um ranking que avalie os árbitros época após época, conforme as suas prestações. Uma estrutura nacional que acompanhe os jogos em todas as regiões desportivas, garantindo justiça nas nomeações para as competições nacionais.” E acrescenta ainda que há necessidade de fazer revisão dos testes físico, pois ele defende que “o modelo de oportunidade única para os testes físicos do Campeonato Nacional é injusto, sugerindo que uma indisposição pontual não deve ditar o afastamento de um árbitro competente de toda a prova”.
● Um apelo à nova geraçãoApesar dos desafios e das pressões externas, a mensagem de Nedil Vaz para os mais novos é de encorajamento. O árbitro lamenta que muitos jovens concluam a formação, mas recuem perante a dureza da carreira.
“Os jovens devem ter a coragem de encarar o desafio, sem tremer por medo de cometer erros ou de suportar pressões. É preciso ter gosto e, acima de tudo, paixão”, afirma.
Com mais de uma década de serviço ao futebol, Nedil Vaz continua a ser um exemplo de que a autoridade em campo não se impõe apenas com cartões, mas com uma história de dedicação que começou no pó dos campos comunitários e atingiu o topo do futebol cabo-verdiano.
Por: GAFT Sports


